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Era noite de 13 de junho de 2013 e eu estava nas ruas, fugindo de policiais. Helicópteros rodeavam as ruas e ouvíamos estouros, gritos e a sensação constante de desespero.

Bombas de Lacrimogêneo vencidas eram disparadas contra os protestantes e nosso grupo estava sendo cercado e massacrado. Ali pela calçada passavam também dois moradores, sem camisetas pretas, máscaras ou cartazes. Mas eles também tiveram que correr, e correndo também se tornavam manifestantes.

A noite acabou e durante dois anos eu me mantive empolgado com as questões sociais. O feminismo, as questões políticas, eleições, os problemas enfrentados nas favelas, o PCC e até tive contato com uma das organizadoras do MST.

E então comecei a notar também que coisas aconteciam internamente enquanto eu me preocupava com todas estas questões. Eu estava agindo internamente da mesma forma como agia lá fora.

O que está dentro é como o que está fora

Qualquer estudante de espiritualidade já deve ter ouvido este princípio do hermetismo: O que está em cima é como o que está embaixo.

Da mesma forma, o que está dentro é como o que está fora.

Dentro desta filosofia de vida, tudo aquilo que vemos e convivemos são símbolos internos sobre como nós nos percebemos. Não existe nada se não você e a sua própria consciência. Todos aqueles que nos cercam representam partes de nós. O mesmo vale para o meio ambiente, a política e as questões sociais. Todas as coisas são signos.

Quando enxergo um defeito no outro, estou apenas utilizando um filtro interno. É por este motivo que algumas pessoas nos incomodam tanto, mas são adoradas pelas outras. Vemos nelas os nossos próprios defeitos.

Se transpormos isto para as questões sociais, iremos perceber que funciona da mesma forma.

Uma pessoa de esquerda-política nutre certo ódio pelas de direita e vice-versa. A tal luta social não é mais do que uma luta – e por isso só gera mais luta.

Nas redes sociais, vemos que 99% das pessoas não possuem o interesse em mudar o mundo através da ação. Elas se colocam em papéis passivos de velhos ranzinzas reclamões e donos da verdade. Reclamam da política, mas são corruptos durante todo o dia. Lutam contra o patriarcado, mas agem constantemente de forma conveniente dentro deste mesmo sistema. Dizem-se não racistas, mas lidam com diferenças ideológicas da mesma forma, se esquecendo que também herdamos certos pensamentos e cultura assim como herdamos uma cor de pele (sim, a ideologia muda e a cor de pele não, mas estou focando na questão de: julgar os outros por aquilo que eles já são, sempre dentro dos meus conceitos de bem e mal).

Hipocrisia é um dos maiores males do mundo e todos nós temos isto dentro de nós.

É impossível que a separação gere amor. No Hebraico, Unidade (Echad) e Amor (Ahavah) possuem a mesma gematria: 13. Separação só gera separação, e se primeiro nos dividimos entre os superiores vegetarianos e inferiores carnívoros, logo depois nos dividimos novamente: veganos e “apenas” vegetarianos. E então outro irá apresentar a sua causa superior que irá dividir novamente as pessoas em outros níveis até que estejamos todos sós.

E não é exagero. Quando propus uma organização entre todas as pessoas de Esquerda para projetos sociais e mobilização, uma conhecida minha anarquista me disse – “mas temos que ver isso bem. Eu não vou querer participar disso com machistas” – sendo que o machismo a qual ela se referia não eram homens que se consideravam superiores, batiam nas suas esposas e abusavam de mulheres. Seu feminismo radical estava acima da proposta de ajudar a sociedade em geral, homens, mulheres, crianças e idosos. Para ela, seria melhor ficar longe dos seus “inimigos” do que educá-los dentro de um grupo controlado através do bom exemplo.

Internamente é igual. Separamos qualidades positivas e negativas. Nos posicionamos de acordo com o nosso egoísmo e aceitamos apenas aquilo que consideramos bom. Então colocamos nossos traumas, defeitos e erros para baixo do tapete da sombra, da mesma forma que não aceitamos as atitudes erradas de nossos outros irmãos.

Dizemos inclusive que “perdemos a fé na humanidade”, sem nos darmos conta de que eu sozinho sou a humanidade e cada indivíduo deste coletivo representa aquilo que sou.

Se considero lidar com isto através de uma luta, então estarei combatendo o que existe de “mau” dentro de mim. Quero eliminar características enquanto que apenas deveria compreendê-las e no máximo equilibrá-las. A preguiça pode te tornar passivo, mas também pode te motivar a fazer as coisas de forma mais inteligente.

Se apenas sou ativo nas redes sociais-virtuais, então também acabo agindo desta forma internamente. Não tenho a coragem de mudar as coisas, mas apenas de observar, reclamar e discutir dentro da minha zona de conforto. E com isso, acabo me moldando com os vícios e defeitos no mundo externo e transporto esta mentalidade para o interno. Serei um revolucionário de facebook do meu próprio desenvolvimento.

A decepção de não mudar o mundo

Em princípio, queremos mudar aos outros porque não temos culhões de nos mudar.

É mais fácil cuidar da vida alheia. Não temos sentimentos nos guiando, uma história, causas, traumas, memórias e influências. Somos covardes olhando por uma frestra na parede, enquanto cutucamos uma fera com uma vara longa.

Mas percebemos que é impossível mudar o próximo. O mundo só muda quando ele quiser e estiver pronto e querer impor a sua mudança não é nada mais do que pura violência. É irônico lutar contra abusos e imposições de poder enquanto queremos revolucionar o mundo de forma tão abruta que impomos novas morais e éticas do dia para a noite.

O homem precisa de algo antes de mudar eficientemente a sua realidade: primeiro ele precisa se tornar responsável pela sua vida e se transformar internamente. Usamos a luta social como uma muleta.

Ao falhar em mudar o mundo, toda nossa energia gasta lá fora deixa de ser direcionada para dentro. E pior, quando falhamos lá fora, começamos a acreditar que a culpa é sempre do outro. E então, internamente, também jogamos esta carga na nossa sombra e ela começa a se tornar cada vez mais obscura.

Não importe, se exporte

Nós costumamos nos importar, enquanto deveríamos nos exportar.

Quando importamos, estamos trazendo tudo aquilo de fora para dentro. Nos preocupamos com o social, justamente porque ele representa algo interno para nós.

A única solução é justamente resolver lá dentro todos os problemas que temos. Então, como seres corrigidos, podemos exportar estas soluções para o mundo.

Se falamos de uma pessoa machista, estamos pensando em uma vida alheia causando mal para outras vidas alheias, muitas vezes distantes de nós. Nos revoltamos com um vídeo do youtube, com uma notícia, ou com uma postagem de facebook.

Entretanto, mantemos dentro de nós seres monstruosos que estão constantemente atacando todos ao nosso redor. A nossa própria incompetência profissional, crises emocionais e falta de atitude acabam causando males piores do que qualquer fascista no mundo. Eles estão se exportando, enquanto nós estamos nos importando.

Não se pode mudar o mundo se você estiver mal aí dentro.

Uma pessoa que fica inconformada com o descaso com as vidas alheias provavelmente também está, internamente, tendo um descaso com a própria vida. Se a política é corrupta e isso me incomoda, então internamente a minha poli-ética está um caos. Enquanto algumas propriedades são deixadas de lado, outras características recebem toda a atenção, onde o Ego corrompe a nossa personalidade autêntica através de uma personalidade arbitrária, reativa e egoísta.

Há dois meses, eu estava altamente crítico comigo mesmo, desacreditado em minhas características e me pressionando. Como resultado, minha energia vinha diminuindo e eu estava sem concentração. Quando decidi mudar a minha postura voltada para o externo, não apenas ignorei tudo o que acontecia ao meu redor, como também comecei a sentir que a vida começou a mudar.

Eu tinha gerado forças para sair do facebook, comecei um trabalho novo e minha força de vontade voltou ao normal. Aquela voz crítica e procurando por brigas havia sumido de dentro de mim e então eu entendi tudo isso que venho escrevendo.

E é esse o caminho em que atualmente acredito.

Sobre o autor - Ryo Matsuno

Escritor e Estrategista em Desenvolvimento Pessoal, criador dos sites AltoConhecimento.com e TeoriaDoViver.com.br . Músico nas horas vagas e pseudo empreendedor, seu hobbie é dominar o mundo.

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