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Hoje eu me afasto do meu amigo porque ele tem outra visão política.

Amanhã me afasto do meu vizinho porque ele come carne.

Semana que vem, deixo minha namorada porque ela acredita em outro Deus.

No mês seguinte, deixo meus pais simplesmente porque eles não são perfeitos como eu.

Separação não traz superação

(Como a mensagem é importante, vou começar pelo fim. Você só precisa ler até essa parte)

Não faz muito tempo que eu comecei a compreender o valor da união pelo amor. Não o amor banalizado, mas sim a tentativa de amar seu próximo. Aqui também não estou falando daqueles que você escolheu a dedo pela questão de afinidade. Estou falando daqueles que acabam fazendo parte da nossa vida e que testam constantemente a nossa paciência. Estou falando daquele seu vizinho irritante que joga lixo na rua e bate na mulher.

O grande trabalho da vida e a solução para todos os problemas é começar a praticar a união. Independente das diferenças, conseguir superar nossos egos e nossos conceitos de moral para aceitarmos aqueles ao nosso redor. Afinal, não somos todos Um?

É fácil amar quem você já ama. Estas são relações baseadas nos nossos desejos de receber.

A questão é justamente lidar com aqueles que fazem arder as nossas feridas. Relações onde aparentemente não iremos ganhar nada, mas que trazem a chave para o movimento da nossa alma.

Ao dividirmos o mundo entre nós e eles, estamos removendo duas oportunidades: a deles de aprender conosco e a nossa de aprender com eles. Seria como alguém que joga fora seu filho de alguns dias porque ele não sabe andar, falar e se alimentar como você. Sabemos que é necessário estar presente e cuidar daquele ser em desenvolvimento e o mesmo acontece com as pessoas diferentes de nós. Somos apenas diferentes e com algumas características mais desenvolvidas.

Ao mesmo tempo, todo indivíduo é um reflexo do nosso próprio Ego. Existe uma mensagem que precisa ser interpretada que diz justamente sobre a sua relação com o mundo, e não do mundo com o próprio mundo. O problema não são as pessoas, mas sim as pessoas em relação a você. O que você pode fazer para melhorar estas relações?

E, acima de tudo, somos também seres falhos em infinitos estágios. Talvez o seu vizinho neo-nazista prejudique algumas pessoas na vida. Por outro lado, quantas pessoas eu não prejudico somente com a minha procrastinação diária? Se meu propósito de vida fosse descobrir a cura do Câncer e eu estiver perdendo 30 minutos por dia no whastapp durante minhas pesquisas, quantas pessoas eu não deixei morrer em um ano?

Julgar as pessoas é fácil. Entretanto toda pessoa tem uma história e um legado de erros passados. Somos criados em ambientes das mais diversas influências, além de possuirmos características únicas que irão ressoar com as circunstâncias da vida. Enquanto uma barra de chocolate gera um desejo ardente em alguns, para mim é apenas mais um doce. Da mesma forma, os outros são o que são simplesmente porque seus valores lhes tocam de forma diferente.

E por fim, eu não posso corrigir ninguém a não ser eu mesmo. Devo amar aqueles que me incomodam sem tentar corrigi-los. Devo me transformar apenas para ser uma influência neste mundo, até o ponto em que nenhuma pessoa mais me incomode.

Quer mudar o mundo? Comece não odiando o seu próximo.

Ações de ódio não resolve um mundo de ódio

(Reflexões mais aprofundadas sobre o assunto)

Há dois anos eu estava removendo pessoas do meu facebook porque elas diziam coisas que eu repudiava. Estávamos em plena euforia política pós junho de 2013 e eu não conseguia tolerar isso. Para elas, éramos vagabundos e vândalos, mas não vou entrar no mérito político aqui.

A questão é que, de início, removi muitos conhecidos e acreditei que o certo era me afastar daquilo que não condizia com o meu ser. Somos o resumo dos nossos 5 melhores amigos, certo? Eu não queria ter amigos próximos que me tornassem algo que eu não gostaria de ser.

Entretanto, depois de alguns meses, reparei que minha timeline era um uníssono de opiniões. Todas as pessoas concordavam com tudo. Era como se tivéssemos uma sociedade interna nossa completamente dividida com a dos opositores. Aqui lia-se Carta Capital. Lá era Veja. Cada lado seguia sua fé cega, contra as ditaduras alheias e lutando contra o mal que era o outro.

Para mudar o cenário, voltei a seguir todas as pessoas sem distinção, mas isso não durou dois meses. Eu já estava me descabelando e a convivência era impossível. Bloqueei mais pessoas e deixei de seguir outras, agora sem fé na humanidade e em mim.

Internamente eu sabia que o ódio não resolvia o ódio, mas era justamente isso que estávamos sendo direcionados a fazer. A questão não era saber, mas sim o sentir e acreditar. Na prática eu odiava todas as pessoas que eram contra aquilo que eu considerava como sendo certo e isso causa uma infinidade de problemas.

Problema #1 – Pensamento único e manipulável

Quando as pessoas se dividem em grupos ou tribos, elas trocam seus próprios pensamentos pelo pensamento do grupo no qual pertencem. É como se seu título fosse um resumo de todas as suas crenças e ações, algo não muito distante dos dogmas religiosos.

Uma pessoa de esquerda acaba aceitando um pacote de valores sociais sem se questionar profundamente. Suas fontes de confiança fazem grande parte do trabalho racional. A direita age da mesma forma quando batem suas panelas e gritam Fora PT sem ao menos conseguir enxergar o cenário político com seus próprios olhos.

O fenômeno não é marca registrada de um ou outro lado. Ela surge como padrão diante das polarizações de massas. A maior prova disso são as manifestações. Qualquer pessoa que tenha parado para pensar por alguns minutos verá que as manifestações são um ato inútil e infrutífero. Cantar marchinhas com placas nas ruas não muda um cenário onde todos estão infelizes com algo.

Outro grande exemplo acontece no futebol. Se os times não possuem uma base sólida, trocando de treinador e jogadores constantemente, todos os times são igualmente aleatórios. O Corinthians de 1970 não tem nada a ver com o de 2016 – tirando as cores do time e o nome. Ainda assim os torcedores abraçam este pacote e torcem para ele até o fim, ainda que estejam torcendo para times completamente diferentes.

No caso social, qual é a melhor empresa para um homofóbico trabalhar? O pensamento tradicional une as pessoas parecidas e, por isso, não promove mudanças e crescimento. Seria muito melhor que alguém assim trabalhasse em uma empresa que lute contra a homofobia, pois estaria em um ambiente propício para o seu desenvolvimento.

Problema #2 – Que atire a primeira pedra quem nunca pecou

O problema no mundo são sempre as atitudes dos outros que se diferenciam das nossas.

Quando perguntei para uma amiga anarquista o que deveria ser feito com os neo-nazistas, a resposta foi: “acho que todos deveriam morrer. Não tem o que ser feito. Eles são a escória da sociedade.”

Se eu perguntasse para um fascista o que deveria ser feito com os negros, a resposta seria a mesma. E com os gays, os judeus e qualquer outra coisa que eles sejam contra.

Além das respostas iguais, o que eles compartilham é o sentimento de que o outro é a causa do mal no mundo. Isso remove toda a visão que eles deveriam ter sobre seus próprios erros. Por experiência própria, nenhuma dessas pessoas aliadas do lado “correto” da moeda são incrivelmente justas. Elas são tão falhas como todas as outras.

Com algum tempo de internet você verá que a sua gramática nos comentários é a coisa mais importante. Não importa seus valores pessoais. Uma vírgula errada pode ser um argumento para algum troll dizer que você está errado porque não sabe escrever.

A maioria das pessoas “cultas” não aceita bem um erro ortográfico. Confundir o “mas” com o “mais” não é necessariamente burrice, mas julgar as pessoas dessa forma, ignorando a situação precária da educação brasileira e as diferenças de oportunidades é algo claro: preconceito e elitização.

Surge então um novo problema.

Problema #3 – O que é o correto?

Quando falamos de moral e ética, o poço não tem fim. Julgar as pessoas pelos seus erros chega a ser engraçado.

Primeiro surgem as questões mais óbvias. Pessoas que matam, roubam e abusam das outras são más.

Entretanto, as definições de certo ou errado são relativas à nossa cultura e época. Há 2 mil anos a escravidão não era algo absurdo. Na verdade, há 300 anos ainda tínhamos escravos no Brasil. Também é interessante perceber que grande parte do nosso “progresso” se fez mediante trabalho escravo. Talvez, se fossemos realmente justos há milhares de anos atrás, não teríamos nem metade do avanço que temos hoje e você não teria um computador e nem internet.

Muitos falam que a Idade das Trevas e a Igreja fizeram um grande mal. Já eu gosto de pensar no que seria da humanidade se nada disso tivesse acontecido. E se tivéssemos 1500 anos de desenvolvimento desde o então? Se hoje temos a destruição da camada de ozônio e das calotas polares, neste mundo alternativo e “perfeito”, teríamos um planeta inabitável já no século XX.

Quando comecei a traçar um ideal de sociedade perfeita, sugeri que não tivéssemos mais nenhuma forma de entretenimento. Para mim, video game e televisão são grandes meios de distração para os problemas reais da vida e da humanidade. Será que uma pessoa que diz defender um mundo melhor deixaria de usar essas tecnologias para se concentrar no que interessa?

É extremamente complicado falar sobre o que é correto. Pior ainda é começar a julgar as pessoas através dessa régua tão torta e imprecisa.

 

Quanto mais eu me aprofundava nestas questões, mais eu percebia que haviam pequenas causas para os grandes males. Talvez o maior deles seja o fato das pessoas não se considerarem responsáveis pelo mundo em que vivem, algo que faz parte da mentalidade de 100% das pessoas. Isso me deixou um tanto perturbado, pois eu enxergava nas atitudes e crenças de todos aqueles ao meu redor a causa de todos os problemas.

Neste nível, qualquer problema é culpa minha e sua. Se existe fome na África, eu sei e me preocupo com isso, então por que eu não fiz nada a respeito? Sou um cúmplice ao deixar nas mãos de outras pessoas uma solução que eu possa ter em potencial. Eu deveria gastar todas as minhas energias para resolver aquilo que me incomoda no mundo, mas percebemos que não é o caso. Nós nos movemos apenas diante daquilo que nos interessa. Ajudar o mundo, neste nível egoísta, só faz sentido se houver algum benefício próprio.

Logo, para me culpar menos por esta mentalidade vil, acabo caçando naqueles ao meu redor a causa de todos os males.

Problema #4 – O outro me reflete. A sombra aumenta.

Percebo no outro tudo aquilo que eu sou.

De alguma forma, aquilo que me incomoda faz parte da minha sombra. São meus defeitos mais obscuros e guardados no inconsciente. Ou eu os ignoro, ou eu apenas demonstrarei estas características quando estando em situações propícias.

Este processo natural é assim por um motivo. Ao lidar com o outro, eu posso me corrigir. Já quando eu afasto aqueles que me incomodam, deixo de lado uma oportunidade de me compreender melhor e de lidar com algo diferente daquilo que estou acostumado a superar.

Problema #5 – Os piores serão os melhores

O que não percebemos é que, quanto maior nossos erros, maior nosso crescimento.

Da mesma forma, as pessoas que nos soam como sendo piores são justamente os mais importantes. São eles que possuem os potenciais de crescimento maior.

Um inglês não possui a virtude de estar sempre no horário porque ele não precisa se esforçar para isso. Sua cultura nutriu esta característica e o sistema de transporte londrino facilita todo o processo.

Já o brasileiro precisa se superar muito para chegar na hora. Ele sofre com uma cultura do atraso, além dos trânsitos caóticos e de um sistema de transporte precário. É o brasileiro, dentro deste ambiente, que poderá desenvolver a virtude real.

O mesmo vale para qualquer coisa. Para mim é fácil apoiar o feminismo. Meus melhores amigos da escola eram de esquerda numa época em que eu nem sabia o que isso significava. Para nós, os valores do feminismo já estavam presentes desde a infância. Já a criança que foi influenciada por um pai e amigos machistas encontrará mais dificuldade para superar esta questão, mas o mérito será muito maior.

Sobre o autor - Ryo Matsuno

Escritor e Estrategista em Desenvolvimento Pessoal, criador dos sites AltoConhecimento.com e TeoriaDoViver.com.br . Músico nas horas vagas e pseudo empreendedor, seu hobbie é dominar o mundo.

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